Vários- Clássicos do Sobrenatural



Editora: Iluminuras
Ano: 2006
Páginas: 254

Sinopse: Contos de diversos autores do século XIX prefaciados, selecionados e traduzidos por Enid Abreu Dobránszky.
Estamos sós. Uma poltrona confortável, um abajur à meia-luz - melhor ainda: luz de vela -, lá fora a noite - de preferência chuvosa. Eis o cenário perfeito para ler histórias do sobrenatural. Daquelas que nos fazem, involuntariamente, desviar da página os olhos e perscrutar os cantos da sala envoltos em sombras suspeitas, momentos dos quais geralmente nos recobramos, tomados de uma súbita vergonha de nossa sensibilidade exacerbada pela imaginação.

UM DESFILE DE GRANDES ESCRITORES E CONTOS SOMBRIOS

Como diz a organizadora dessa belíssima coletânea, a Sra. Enid Dobránszky, foi no século XVIII que começaram a surgir os primeiros romances -- ou tentativas de romances -- do subgênero gótico. Daí para o demais "subgêneros", como a fantasia, o romance de mistério, o policial, suspense médico, etc., foi um pulo. Tudo, porém, começou lá para trás, nos finais do século XVIII e converteu-se em verdadeira febre no século XIX. Alguns fatos contribuiriam para isso, como o surgimento de doutrinas místicas e esotéricas (Teosofia, por exemplo), seitas orientalistas, a busca pelo sobrenatural e espiritual, embora não exatamente religioso, mas nascido mais das novas seitas, das crendices populares e do folclore.
Bram Stoker, que era membro da famosa ordem secreta Golden Dawn (segundo alguns autores, embora isso careça de fontes seguras), foi o nome mais famoso e festejado nessa época. Claro, outros nomes também surgiram, floresceram, murcharam... e renasceram para os séculos XX e XXI, como o do nosso querido H. P. Lovecraft -- querido, digo, por causa da excelente fama que goza no Brasil, onde tem fóruns, sites, grupos em redes sociais, vídeos, podcasts, etc., tudo dedicado a ele. Além de jogos de todos os tipos e HQs.
Nesse livro, a organizadora caprichou na escolha dos autores. Não direi que gostei de todos as histórias, mas tentarei dar um parecer geral de todos, apesar de alguns terem me causado uma impressão meio... confusa, para dizer o mínimo.
Listados em ordem alfabética, estes são os contos:

<> Arthur Conan Doyle - O capitão do Estrela Polar


Um conto que fala sobre as impressões no diário de um estudante de medicina, John Ray, durante seis meses de viagem no baleeiro Estrela Polar. O protagonista é o capitão Nicholas Craigie, o qual irá mostrar sinais de grande descontrole emocional. Há no conto o sabor de maresia, de navios fantasmas, de mistérios náuticos e sereias. O toque sobrenatural está presente, como neste trechinho: "17 de setembro — O Bogie [duende] novamente. Graças a Deus que tenho nervos fortes! A superstição desses pobres rapazes e as explicações circunstanciais que dão, com a maior sinceridade e convicção, repugnariam a quem não estivesse acostumado com seu jeito. Há muitas versões da questão, mas a soma total delas é que algo sinistro adejou pelo navio inteiro durante a noite toda." Um conto interessante, sem os mistérios de Sherlock Holmes, mas com o toque de amores sobrenaturais em torno do capitão e de uma dama-branca (fantasma).

<> Bram Stoker - A casa do juiz


Sem dúvida, o melhor de todos (juntamente com o conto de W. W. Jacobs). Esse conto também está numa coletânea lançada em Portugal, sob o título "Contos Arrepiantes", Guimarães Editores, todos do genial autor de 'Drácula'. É a história de um rapaz que, imprudentemente, decide passar alguns dias numa casa velha, alugada. Fica sabendo que a mesma pertencera a um juiz, homem de maus bofes e grande pendor para cometer injustiças... o estilo fino, cirúrgico, letal, de Stoker é notável neste conto, o melhor de todo o livro.

<> Charles Dickens - O sinaleiro

Charles Dickens, outro grande autor do século XIX não decepciona com suas ghost stories: 'O Sinaleiro' é sim, uma história de fantasmas, típicas da Inglaterra, com o final surpeendente.

<> Charles Dickens - Para ser lido com reservas 

O título desse conto faz jus ao mesmo; li com MUITAS reservas e não apreciei tanto esse conto, que fala sobre a atuação de um fantasma (de um homem assassinado) sobre o resultado de uma demanda judicial. Pouco suspense, narrativa empolada, embromada, onde falta mais concisão e clareza. Notei isso em vários contos, talvez a tradução tenha deixado a desejar.

<> Edith Wharton - Depois


Apesar da falta de concisão que se notam em vários contos (exceto no de Bram Stoker), esse conto de Edith Wharton é muito interessante. "Há um fantasma em Lyng"? "Vocês jamais saberão". Ora, pode um fantasma existir em um lugar, sem que jamais se saiba? Então é simples, ele não existe... Ou existe, porém somente "depois" é que se descobre que tal ou qual pessoa era um fantasma. Um conto com toques de uma fluidez cheia de mistério, onde a eterna suspeita de Mary Boyne com relação ao marido - e ao que ele tinha a ver com seus medos e sobressaltos - dá o tom da história. Excelente enredo. Excelente final.

<>Edith Wharton - Os olhos


Esse conto é exatamente o oposto do anterior. Tive que recomeçar a leitura umas duas ou três vezes, para entender quem era quem, o porquê de tal rapaz estar ali, ou dos tais 'olhos fantasmagóricos' surgirem. Enfim,   a leitura engrenou, detestei o esnobe contador de histórias, Culwin. 
"Gilbert, é claro, desejava festejar sua emancipação de alguma forma espetacular; mas despachei-o sozinho para dar vazão a suas emoções e fui para a cama para dormir até que as minhas se acalmassem. Enquanto me despia, comecei a imaginar qual seria seu sabor logo mais... muitos dos sabores mais refinados não perduram! Mesmo assim, eu não o lamentava e pretendia esvaziar a garrafa, ainda que ela acabasse por se revelar insípida."
 Dá para subentender aí, uma relação homoafetiva entre o velho malandro e seu "protegido". O final é decepcionante, pouco assustador e de um clichê que dá sono.

<> Edward Bulwer-Lytton - Assombrações
Um conto razoável, sobre uma casa assombradíssima, onde ninguém consegue viver. O protagonista lá passa uma noite e vê... terrores indizíveis. Entretanto, apesar da parafernália esotérica que o autor aplica ao tema, os sustos são previsíveis e o desenlace, insosso.

<> H.G. Wells - O quarto vermelho


Outro conto que não tem exatamente um 'mistério' a ser descoberto, um 'problema' a ser resolvido. Um jovem passará a noite em um quarto que, segundo os moradores da velha casa, é assombrado pelo fantasma de um conde ou de uma condessa. H. G. Wells nunca foi meu autor preferido de histórias fantásticas, e esse conto é prova disso: um enredo fraco e clichê.

<> Henry James - Decisão correta
Outro conto que padece de concisão. Tenho certeza que a culpa não é do autor, mas da tradução. O texto não flui, as frases são muito longas, a compreensão e a clareza ficam emboladas entre palavras demais, frases muito longas, contextos cansativos. O tema também não é tão criativo, nem sequer cativante.

<> Joseph Sheridan Le Fanu - Schalken, o pintor


Um conto bom, apesar da complicada tradução. "[...]esse quadro é o registro — e acredito que um registro fiel — de um evento extraordinário e misterioso. Foi pintado por Schalken e o rosto da figura feminina que ocupa o lugar principal da cena, é um retrato exato de Rose Velderkaust, a sobrinha de Gerard Douw, o primeiro e, creio eu, o único amor de Godfrey Schalken. Meu pai conhecia bem o pintor e do próprio Schalken ouviu a história do misterioso drama, do qual o quadro representa uma cena. Esse quadro, que é tido como um belo exemplo do estilo de Schalken...". Nesse conto, o único sobre vampiros no livro todo, há um certo lirismo, que remete a outro trabalho de Le Fanu (traduzido por mim, "Carmilla"). Uma história de amor, um toque de drama, um toque daquele gótico poético que tanto se aprecia nos romances desse tipo.

<> M.R. James - O livro de recortes do cônego Alberic
A história é boa, não tem um fantasma, mas algo talvez mais demoníaco. Numa catedral, na cidadezinha de Saint Bertrand de Comminges, nos Pirineus, há uma catedral. E lá há um famoso livro, onde um tal cônego Alberic juntou recortes de outros livros. Uma das ilustrações trazia alguma marca maligna. O conto é bom, daria um romance longo se o autor quisesse e de grande impacto. Infelizmente é bastante curto.

<> Robert Louis Stevenson - O ladrão de corpos

Esse conto é muito bom, tem um protagonista que é, ao mesmo tempo, o 'mocinho' e o 'bandidinho'. Traz uma boa reflexão sobre os atos inapropriados, o desrespeito com os mortos, o crime, a impunidade e a negligência. É como diz o pensamento de um filósofo (que não recordo o nome): "A indiferença dos bons faz triunfar todos os tipos de maldades". 

<> Rudyard Kipling - Eles
Um conto horrível, absolutamente intragável, confuso, a clareza do estilo é prejudicada por construções de frases insondáveis, incompreensíveis! Sinceramente? Parece que a tradutora se confundiu aqui. Cheguei ao fim sem entender coisa nenhuma. Não percebi nenhum traço de fantasia ou sobrenatural no tal conto.

<> Rudyard Kipling - No fim da passagem
Outro conto totalmente incoerente... Não sei se Kipling tinha esse estilo tosco, emaranhado e incompreensível ou foi culpa da tradução. Esse li pela metade e prefiro não comentar.

<> W.W. Jacobs - A pata do macaco


Um conto fantástico! Não do gênero 'fantasia', mas excelente, extasiante e assombroso. Foi levado à televisão brasileira, se não me engano na década de 1970. Lembro-me de ter assistido, cheia de medo, ao macabro pacto feito entre o casal de idosos e o talismã, a tal pata de macaco. A velha senhora foi interpretada muito bem, pela atriz Nathalia Timberg e  o marido, pelo Mario Lago. O segundo melhor conto da antologia.

Se você tiver interesse por esse livro (não sei se há reedição), achei na Amazon, talvez consiga um exemplar. LINK AQUI.





Pat Kovacs - Caleidoscópio



ATUALIZAÇÃO DE POSTAGEM:
Sinopse:
Dakini Shaitan é uma Bruxa que renega sua própria natureza, refugiando-se no Mundo Incônscio, onde ela pensa que jamais lidará novamente com a Magia. Porém, um ataque terrorista de Magos Negros, os Novos Soldados Escuros, em pleno centro comercial de Londres, muda drásticamente a sua vida.
No Limbo, na Estação entre a Vida e a Morte, seu antigo Mestre Alquimago, Angra Hellmann, tenta convencê-la a retornar ao Mundo dos Vivos, após uma arriscada experiência que poderá matá-lo e, ainda assim, não conseguir trazer Dakini de volta à Vida.
Vida e Morte, Magia e Loucura. O que o Ser Humano é capaz de fazer por Amor ou Ódio.

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Um livro repleto de magia, que embora possa ser considerado uma ficção para jovens adultos, prende a atenção de qualquer pessoa, em qualquer idade. Tem um pé no "mundo mágico" e cenas repletas de ação, suspense, fantasia e amor. Recomendo para os que leram a série Harry Potter, na qual foi inspirado. 
A promoção abaixo acabou, mas o livro pode ser adquirido NO LINK ACIMA!


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Fique de olho por aqui no blog ou na minha página no Facebook, que sempre estarei trazendo novidades sobre os livros e as deliciosas promoções que todos gostam :D pois, melhor do que um precinho super barato, é um precinho 0800 XD

Pat Kovacs - Tempo Paralelo

Tempo Paralelo - Uma Vida. Duas Realidades. 


No mundo que conhecemos também há um mundo que desconhecemos. Um mundo em que a magia impera e magos, feiticeiros e bruxos vivem como nós e, muitas vezes, ao nosso lado. 


O bem e o mal estão em guerra e o passado, presente e futuro se misturam para trazer uma alma para a luz e com isso unir duas almas apaixonadas que nem o tempo pode separar. Anderson Hardock Lobo é um Bruxo das Trevas, um Soldado Escuro que faz parte do Exército Negro, mas vê seus ideais alterados ao encontrar a misteriosa Evangelina. Evangelina Dracena, é uma feiticeira poderosa que vive em harmonia com os Inconscientes, por ser mestiça, e faz parte do grupo "Resistência Autônoma", que luta para restaurar a paz no Mundo Magnífico, o "mundo" dos bruxos. Lobo e Evangelina são inimigos declarados, mas precisam correr contra o tempo para realizar o desejo mais profundo de seus corações: Unir suas almas. 

Sinopse por Cris Shitinoe - Comunidade Romance Com Tema Sobrenatural






Catherine Gaskin - O Vaso Partido [atualização]


Tudo começou com o ruído inesperado de cristal esfacelado... "O Vaso Partido", resenha


Título original: Edge of glass

Catherine Gaskin

Ano: 1987

Páginas: 250

Editora: Record


Sinopse:

Tudo começou com o ruído de cristal esfacelado... Maura D'Arcy é jovem e bonita, com uma promissora carreira de modelo, e descobre ser a ultima descendente da família Sheridan, vidreiros famosos. Viaja então para Conclath com o fito de reclamar o vaso de cristal que fora roubado de sua mãe.
Em Conclath, Maura encontra sua avó, mulher forte e autoritária, Connor, seu primo, homem misterioso e sombrio, e Brendan Carrol, que exerce sobre ela forte atração... mas ela sente-se dividida... entre os dois irlandeses, sua vida em Londres, e seu compromisso com a família Sheridan.

A RICA HISTÓRIA DO VIDRO IRLANDÊS

O Vaso Partido é um mais do que um romance no estilo gótico -- como todos os dessa autora --, é também um pedacinho da história da Irlanda. Eu mal conheço (por meio de leituras e pesquisas) a velha Inglaterra, quanto mais a Irlanda. Sei, entretanto, que são terras habitadas por um povo bravo, corajoso e estranho, até certo ponto.

Esse livro eu comprei quando tinha quinze ou dezesseis anos, numa das livrarias mais badaladas de Curitiba, na Rua XV. Eu estava alegre porque tinha ganhado minha mesada e ia gastá-la comprando o que eu mais amava (e amo): livros. A capa linda, como a maioria das capas de romance da Editora Record (e até os de banca, naquele tempo), me chamou a atenção de imediato: Um casal charmoso, vestido à moda dos anos 1970, o homem com ar austero, a moça de longos cabelos castanhos-acobreados esvoaçantes, tendo ao fundo um castelo medieval, mergulhado nas névoas invernais do oeste europeu.

Uma cena belíssima e a sinopse, igualmente atrativa, me fizeram comprar o livro, que guardo até hoje.


Considero esses antigos bestsellers "retrô", como clássicos modernos. A história contada por autores como Catherine Gaskin, Daphne Du Maurier, Harold Robbins, Agatha Christie, Aldous Huxley, Boris Pasternak, Christian Jacq, Eileen Goudge, Frank G. Slaughter, F. Paul Wilson, George Orwell, Howard Fast, Irving Wallace, Judith Krantz, Ken Follet, entre outros, são atemporais: Suas descrições de lugares ou cenas históricas são ricas e bem detalhadas, os personagens são profundos, com conflitos psicológicos que nos fazem refletir sobre a conduta humana e seus debates entre moralidade e imoralidade, entre a ideologia falsa e a verdadeira, entre amores profundos e paixões passageiras. O que não ocorre hoje em dia, em tempos de "livros descartáveis" como certos livrecos sobre vampirinhos-do-bem, homens-lobo, adolescentes possuidoras de superpoderes, etc. Enfim, enredos que poderiam virar histórias em quadrinhos e entreter adolescentes -- com pouco a acrescentar, além de uma rápida distração.


Nesse romance, Maura D'Arcy é filha de uma mulher, cuja mãe a rejeitou no passado por causa de um problema familiar. A mãe de Maura já morreu, mas sua família ainda vive na remota Conclath, Irlanda. Ela descobre que é a última Sheridan (ou Tyrell, que é o sobrenome da antiga aristocracia da região), e será levada por acontecimentos inesperados a viajar para a velha mansão Meremount, em Conclath.

O enredo traz à tona dois homens: o primo de Maura em terceiro grau, Connor, moreno e sombrio e o jovem Brendan Carrol, loiro e descontraído. A vida em Meremount fará com que Maura mergulhe na história daquela decandente senhora, Lady Maude Tyrell, sua avó, e todos os desacertos, sofrimentos, aventuras e desventuras pelas quais ela passou, e junto com ela, todos que habitam a velha e arruinada mansão.
É uma trama sombria e maravilhosamente entretecida de pequenos recortes históricos da Irlanda, da história do vidro, sua fabricação, seu feitio manual, seus tipos, os homens que trabalham com ele (vidreiros), etc.

'— Imagine só — disse ele. — Plínio conta a história de uns mercadores que, milhares de anos antes de Cristo, acamparam nas areias do rio Belus. Eles colocaram as suas tigelas quentes de comida sobre alguns pedaços de natrão que estavam levando, e de manhã viram que o calor dos potes havia fundido a areia e a soda, formando vidro. É uma história boazinha, mas acho que a comida deles devia ter ficado bem estorricada para que os potes ficassem tão quentes. Isso é vidro feito pela mão do homem. Mas tem também o vidro que vem da natureza, obsidiana negra; há montanhas inteiras desse material. As tribos antigas do México barbeavam-se com isso, e sacrificavam as suas vítimas para os deuses com facas feitas desse material. Mas foram os egípcios que fizeram o primeiro vidro de que temos notícia. Eles tinham todos os ingredientes necessários: areia, soda e combustível dos bosques de acácias, e pessoas ricas o bastante para pagar por um material tão caro. No começo faziam vasilhas e garrafas formando uma fusão de sílica e soda em volta de um centro de argila e areia, que podia ser retirado quando a fusão já tivesse esfriado e endurecido, ficando um recipiente oco de vidro opaco. Eles continuaram a usar esse sistema por muito tempo, até que alguém descobriu que a fusão líquida poderia ser colocada na extremidade de uma haste oca de ferro e soprada, fazendo uma bolha, e que esta bolha poderia ser soprada em moldes para que formas idênticas pudessem ser feitas. Isto era uma espécie de produção em massa, e o vidro tornou-se relativamente barato. Reaquecendo a bolha fundida todas as vezes, que ela começava a esfriar e endurecer, eles descobriram que podiam mantê-la em um estado que permitia que trabalhassem nela, e poderiam fazer com ela o que quisessem: esticá-la, apertá-la, amassá-la, cortar, rasgar... Veja só...'
Também mostra dramas pessoais que dividem os personagens, como o drama vivido por Connor e Lotti, o drama vivido no passado por Blanche D'Arcy e o rompimento entre ela e a austera Lady Maude, os habitantes de Conclath, entre outros.
 

'— Não! — eu disse. — Isto é que é mentira! Todos os anos em que eu permaneci uma estranha foram por culpa sua, Lady Maude. Eles não precisavam ter existido. A senhora teve 23 anos para fazer de mim uma neta. Preferiu não fazê-lo.
— A sua mãe me traiu! Você acha que eu iria querer você enquanto a influência dela estava lá para destruir e corromper todo o bem que eu iria fazer? Sim, corromper! Blanche não era melhor do que esta outra, a sua filha, Herr Praeger. Blanche me traiu e a todo o futuro dos Tyrell por causa de um homem. Então esta outra veio e não apenas corrompeu o que havia de bom aqui, mas tentou roubá-lo de mim. E agora a minha neta... Mas ela já pertencia à sua laia; quase nem precisou ouvir as mentiras antes de acreditar... Eu errei em ter esperanças. Eu errei em pensar que, por ser uma Tyrell, ela seria diferente da mãe, diferente de todas essas moças estúpidas, corruptas e egoístas que há aí hoje em dia.
Ela descansou as duas mãos na bengala. Era uma bengala de homem, comprida, mas não grande demais para a sua altura, com uma cabeça de leão de prata no castão. A cabeça leonina e a velha pareciam fazer parte do mesmo mundo, selvagens e orgulhosas, agarradas à vida.
— Bom, chega de alimentar esperanças Esta foi a última vez que me traíram. Onde não há esperança, há pelo menos paz. [...]
Nenhum de nós se moveu ou falou. Havia uma tristeza terrível naquela cena: a sua subida vagarosa pelas escadas; e, contudo, era também uma cena maravilhosa. Fiquei pensando, de pé, sem ousar ir ajudá-la, sabendo que iria logo dar de cara com o seu desprezo, a sua rejeição final, que esta seria a última vez que veria esta velha demente, vivendo ainda como uma aristocrata quando todo o código que orientava a sua vida havia sido transformado em nada no correr deste século. Senti, também, uma tristeza por mim mesma, uma vaga sensação de perda, contudo era a perda de alguma coisa que eu nunca conhecera. Ela estava certa. Eu não dera nada a ela; ela não me devia nada. Ela também saía perdendo. '
Um livro rico em todos os sentidos: uma narrativa ágil, simples e, ao mesmo tempo, perfeita em retratar uma época, a história de uma aristocracia falida e de um estilo de vida que já não existe nos dias de hoje: Nostalgia, muitas reflexões, é o que esse livro proporciona. Além de um bom suspense, é claro.
Se você gostou da resenha, poderá adquiri-lo somente em sebos, já que não há reedições, o que é uma pena.

Sheridan Le Fanu - Carmilla (tradução: Jossi Borges)



NOS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA VAMPÍRICA

O conto longo ou novela de Sheridan Le Fanu foi um marco na literatura gótica, no século XIX. 
Quando li o conto pela primeira vez, foi em um livro emprestado na Biblioteca Pública do Paraná, lembro-me de ter encontrado nas prateleiras de "Literatura Estrangeira - Contos". Procurava, como sempre, um livro com contos sobrenaturais ou pelo menos, com muito suspense.

Marcilla ataca a adormecida Bertha, Ilustração do The Dark Blue de D. H. Friston (1872)

Deparei-me com uma coleção de grossos e antigos livros de capa dura, bem manuseados, em cujas lombadas eu li: "Os melhores contos de suspense da literatura mundial", "Os melhores contos de Natal da literatura mundial" e assim por diante. Até encontrar um título mágico, que brilhou diante dos meus olhos jovens: "Os melhores contos de terror da literatura mundial". Passei a mão no livro, de páginas amareladas e percorri o índice com olhos ávidos. Um dos títulos da coletânea era "Carmilla" e eu fiquei ansiosa para ler aquilo. Bastou um lance de olhos no primeiro capítulo para eu me render: "Excelente", eu pensei. "Uma história que se passa em regiões longínquas da Europa, entre castelos velhos e com clima de terror gótico".


Está no meu sangue, esse amor ao Romantismo e ao suspense, à Literatura Gótica, a tudo que remete ao sombrio mundo europeu -- ou semelhante a esse -- com suas florestas escuras e frias, suas cidades  antigas, suas igrejas de arquitetura intrincada e beleza austera e, principalmente, seus magníficos castelos. Alguns, assombrados.

O livro que me caiu em mãos me trouxe o primeiro contato com a Literatura Gótica (chamada 'terrorífica' até os idos da década de 1970), nascida pelas mãos de Sir Horace Walpole e seu insosso "O Castelo de Otranto" (1764), cheio de personagens inverossímeis, fantasmas bizarros e meio bobinhos, passagens secretas e afins.  Mas deixemos de lado Walpole, e lembremos de bons autores góticos, como Charles Robert Maturin, com "Melmoth, o Peregrino", Mary Shelley ("Frankestein ou o Moderno Prometeu"), Gustav Meyrink ("O Golem"), Oscar Wilde ("O Retrato de Dorian Gray" e "O Fantasma de Canterville"), Henry James ("A Outra volta do parafuso"), Bram Stoker ("Drácula", "A Toca do Verme Branco", "The Jewel of Seven Stars", "O Hóspede de Drácula"), etc.


O conto "Carmilla" era instigante, principalmente porque eu já lera "Drácula" e, quando soube que aquele foi inspiração para este último, fiquei encantada. 

Mais tarde, adquiri o livro "O vampiro de Karnstein e outras histórias", publicado em 1997, pelo Círculo do Livro. Desde então, Le Fanu está entre meus autores favoritos, junto com Bram Stoker.

Agora, apresento a vocês minha própria tradução de "Carmilla", a partir do original, com notas e ilustrações. Enfim, bebi da fonte do grande autor e trouxe mais uma opção em e-book, hoje na Amazon, para os amantes do terror gótico - uma vez que essa literatura é praticamente desdenhada no Brasil (digo, a literatura do século XIX). 

Querem conhecer a história de mistério, sensualidade maligna e terror, que inspiraram Bram Stoker? Conheçam Carmilla na Amazon!